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 Psicologia Associacionista vs. Teoria da Gestalt

Ayla Nalanda Dantas Queiroz

Para compreender a teoria da Gestalt e o que ela revolucionou no campo da percepção visual, se faz necessário compreender, primeiramente, a psicologia que ela propõe combater. Por muitos anos, acreditava-se que a percepção da forma se dava por por objetos separados, ou seja, quando enxergamos uma casa, por exemplo, vemos primeiro a porta, as janelas, as paredes e o teto. É como se o olho interpretasse primeiro cada parte do objeto e posteriormente o cérebro interpretasse o todo.

Esse conceito é chamado de psicologia atomista ou associacionista, pois para se explicar, ela precisa que o indivíduo tenha experiência suficiente de mundo para associar cada forma, isto é, ela parte do princípio que tudo o que vemos, cada imagem, objeto, cor e forma não passa de luz sendo refletida e para que nosso cérebro consiga compreender cada um desses estímulos, ele precisa ter contato com o mesmo objeto, sucessivamente, para poder associá-lo á um significado. Desse modo, para um bebê recém-nascido, “o mundo seria um caos luminoso e a forma, mais tarde percebida, um fato arbitrário, resultado da aprendizagem.” (FRACCAROLI, 1982, p. 10).

Ademais, o cérebro humano é composto por fibras nervosas isoladas, algo que para os psicólogos da época, era justificativa o bastante para sua teoria, para eles, cada ponto enxergado pela retina corresponderia a uma estimulação de uma fibra nervosa isolada. Seu significado, se segue imediatamente por sua experiência com o objeto.

No entanto, muitas vezes essa primeira imagem que formamos de um objeto, não se relaciona com o objeto real, que é o caso da ilusão de óptica. Este é um fenômeno inexplicável para a psicologia associacionista, pois neste contexto, o objeto é percebido pelo sistema visual de uma maneira e interpretado de forma diferente no cérebro. Mas, se primeiro enxergamos cada parte isoladamente de uma imagem, como é possível a interpretamos de uma forma diferente do que ela é verdadeiramente?

 

FIGURA 1 - ILUSÃO DE ÓPTICA

 

 

 

FONTE: FRACCAROLI, ( 1982, p. 11).

 

FIGURA 2 - ILUSÃO DE ÓPTICA

 

 

FONTE: FRACCAROLI, ( 1982, p. 11).

Para melhor compreensão, o uso de imagens se torna extremamente necessário, na figura 1, por exemplo, os dois retângulos possuem exatamente o mesmo tamanho, no entanto, um deles parece menor que o outro, o mesmo acontece com a figura 2 onde as linhas estão paralelas, mas na verdade parecem oblíquas. 

Graças a esse argumento, a teoria da Gestalt pode ser comprovada, para ela, não enxergamos “partes” mas sim “todos”, afinal nosso cérebro é capaz de criar partes que na verdade não estão lá.

Para esta psicologia, precisamos deixar um pouco de lado o significado e focar na forma como o que ela é, uma forma, como diz Kepes, (1944)

 “ é necessário, para que exista uma percepção de estética, não ver objetos com significados, mas forma, ‘todos’ estruturados como resultado de relações… Que possam sentir o prazer de uma inscrição somente pela harmonia da caligrafia, independente do significado da palavra.”

Além disso, apesar do nosso cérebro ser anatomicamente dividido em fibras nervosas isoladas, o estímulo visual se dá por extensão, ou seja, o que enxergamos é na verdade relações de uma parte em dependência de outra. 

O fenômeno da primeira imagem é explicado por Fraccaroli (1982, p. 11)  

“No exemplo da ilusão de óptica (fig. 1), a excitação cerebral se processa em função da figura total pela relação recíproca das suas várias partes dentro de um todo. Um retângulo nos parece menor que o outro, porque eles são vistos na sua dependência dentro de um ângulo”. 

Isto posto, o Gestaltismo propõe explicar o que nos torna capazes de relacionar uma parte a outra, integrando-as em um todo. A teoria explica que o nosso próprio sistema nervoso tem a capacidade de se autorregular, ou seja, ele próprio procura organizar o que vemos em formas simples, coerentes e o mais importante, unificadas. Desta forma, é correto afirmar que o significado do que vemos está inerente a nós, é fruto de um processo orgânico que nosso próprio corpo produz e que não conseguimos controlar, exemplificando isso, muitas questões sobre o fenômeno da percepção são respondidas.

Uma dessas é o questionamento do “porquê vemos as coisas como vemos” que, trocando em miúdos, se resume a um complexo processo psicofisiológico no qual se explica em dois tipos de forças: as externas que são os estímulos luminosos provenientes do objeto observado, essas são as forças responsáveis por enviar informações através da luz para os nossos olhos. 

As forças internas são as responsáveis por organizar, simplificar e estruturar o que vemos da melhor forma possível. Elas se originam de um dinamismo cerebral explicado pela própria estrutura cerebral. A anatomia cerebral, diferente da psicologia clássica, não é argumento para a tese da Gestalt, porque apesar de as fibras nervosas estarem, de fato, organizadas de forma isolada, também existem inúmeras conexões em formas de cruz que relacionam entre si e isso explicaria porque enxergamos partes em relações às outras. Sendo assim, retornando à perspectiva anterior sobre o ponto de vista de um bebê recém-nascido, Fraccaroli afirma que:

 "O mundo não é, para uma criança recém-nascida, um caos luminoso, como pretendia a psicologia clássica. Ao contrário, a criança, desde seu primeiro olhar, já percebe formas destacando-se sobre um fundo. A maneira como se estruturam essas formas obedecem a uma certa ordem, isto é, essas forças internas de organização se processam mediante relações subordinadas a leis gerais.” (FRACCAROLI, 1982, p. 13).

As leis gerais, ou leis da forma, como ficaram conhecidas posteriormente são uma das principais contribuições da Gestalt para o campo da percepção visual, inúmeros debates podem ser formados em relação à questão, no entanto irei cita-las apenas superficialmente e simplificada. De forma resumida, as formas são percebidas do “todo” para a “parte”, elas tendem a se organizar de forma simplificada e sua percepção tende a um equilíbrio visual.

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Referências 

FRACCAROLI, Caetano. A Percepção da Forma e a Sua Relação com o Fenômeno Artístico: O Problema Visto Através da Gestalt. 1952. 33 p. Dissertação (Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1952.

 KEPES, György. Language of Vision: painting, photography, advertising-design. Chicago: Theobald, 1944.

Ficha Técnica

Texto desenvolvido por Ayla Nalanda Dantas Queiroz para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).

©2022 por Teoria da visualidade

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