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A voz das formas

Helena Contocani Silva

Desde muito cedo na história da humanidade a visão é utilizada como um sentido de transmissão de informações e um meio de comunicação muito efetivo. Na Grécia antiga, quando Aristóteles descreve a percepção humana através dos 5 sentidos, a visão já era nomeada sentido principal de transmissão e aquisição da informação. A linguagem verbal inegavelmente executa seu papel com excelência, tendo como base não só a visualidade, mas a oralidade (audição) e principalmente um campo não fisiológico dependente do contexto, da cultura e de toda uma construção arbitrária à forma em si: os significados por trás de cada expressão da linguagem.  


Uma diferença-chave entre a linguagem verbal e o ideal modernista de uma "linguagem visual” é a arbitrariedade do signo verbal, que não possui nenhuma relação natural ou inerente com o conceito que representa. (LUPTON & MILLER, 1994, p.27)


A busca pelo entendimento da forma com sentido em si mesma levou diversos estudiosos da forma e da linguagem à criação de uma pesquisa por uma linguagem que conectasse a percepção de todos que podem utilizar do sentido da visão e extrair dela informações. 


Nesse contexto, a forma visual era vista como uma escrita universal e atemporal, que respondia diretamente à mecânica do olho e da percepção. Ou seja, era um tratado mais biológico do que culturalmente condicionado.(SILVEIRA; CAVALCANTE, 2021)


Tendo como contexto de criação e inspiração a nova onda moderna, a conhecida escola de estudos principalmente visuais, Bauhaus, se utiliza destes conhecimentos na tentativa de compreender melhor a percepção e tradução de formas e figuras intuitivamente, exprimindo seu significado inerente e universal. A incessante caminhada em direção a um mundo sem excessos e adornos caracterizam o design modernista que estrutura a Bauhaus. A redução de elementos reflete fortemente o contexto histórico em que se vê inserida, visto que o período final da I Guerra Mundial influencia e muito no movimento estritamente funcional e objetivo, porém fugindo sempre do tedioso e sistemático. 

Nascida em meio a uma Revolução Mundial, inovações tecnológicas e novas linhas de pensamento, a escola se estrutura fundamentalmente voltada para a criação de um padrão de design de alta qualidade atemporal, a fim de tornar a arte parte da vida cotidiana. Sua fundação buscava alcançar um elo sólido entre a arte, a técnica e a indústria, dialogando porém com os princípios do artesanato, de forma acessível. 


O objetivo específico da Bauhaus, segundo Walter Gropius, em seu livro Bauhaus: nova arquitetura (1975, p. 30), era

[...] concretizar uma arquitetura moderna que, como a natureza humana, abrangesse a vida em sua totalidade. Seu trabalho se concentrava principalmente naquilo que hoje se tornou uma tarefa de necessidade imperativa, ou seja, impedir a escravização do homem pela máquina, preservando da anarquia mecânica o produto de massa e o lar, insuflando- lhes novamente sentido prático e vida. 


A descrição de um Dicionário Visual, fazendo uma relação direta à estrutura gramatical da linguagem verbal, não é feita com intuito de abolir a comunicação existente, mas agregar às faculdades de cada indivíduo que se põe em contato com conteúdos visuais. Compreender que as mais diferentes combinações de mesmos elementos visuais podem transmitir  e produzir diversas informações e sensações foi uma virada de chave quando se pensa em Design.


Segundo essa abordagem,  um  “vocabulário”  básico  de  elementos  visuais  podem  ser  organizados e combinados de diferentes maneiras, compondo uma espécie de “gramática visual”. (SILVEIRA; CAVALCANTE, 2021)


A associação entre a fisiologia e a percepção visual utiliza dos conhecimentos agrupados da psicologia Gestalt, demonstrando que sim, de fato nossa percepção visual depende mais da estrutura física comum a quase todos, do que à associações com conhecimentos prévios. Aplicar estes conceitos na construção de formas e entender de forma clara o porquê algumas configurações causam determinadas reações, se fez e faz ferramenta essencial na construção de figuras e conjuntos visuais mais certeiros e objetivos, correspondentes à mensagem a ser passada. A linguagem visual teria agora não um significado por convenção, mas por fatos físicos. 

A linguagem a ser pensada não só propõe uma reflexão acerca do objetivismo daquilo que é universal, mas pelo contrário, busca agradar o olhar de todo ser que pousar seus olhos sobre ela. Sendo justamente um dos questionamentos feitos pela teoria da Gestalt, o porquê formas agradam ou desagradam os olhos espectadores é também ponto de partida para o que os Bauhausianos chamam de busca pelo Bom Design. 


Na formação de imagens, o equilíbrio, a clareza, a unidade e simplicidade constituem, para o homem, uma necessidade e é por isso que procuramos esses elementos e os consideramos indispensáveis numa obra de arte. Simplicidade, no caso, não tem sentido comum. (FRACCAROLI, 1952, p 29)



Concluo assim que a linguagem visual em si, é o conceito em comum a todas as formas pensadas e que expressam um conteúdo, mesmo que ainda não totalmente decifrado por nós. Atingir apenas o ponto instintivo relativo à visão é utópico, visto que a absorção do conteúdo não ocorre de forma linear e única, mas existe em cada indivíduo a potência de pluralidade de entendimentos. 


Em Sintaxe da Linguagem Visual, Donis A. Dondis explica uma série de composições abstratas a partir de seu “sentido universal”, pressupondo a interpretação de formas visuais como uma faculdade universal da percepção. Um dos exemplos citados pela autora no livro diz que as formas básicas possuem inúmeros significados que podem ser provenientes de associações diversas, vinculações arbitrárias ou ainda “através de nossas percepções psicológicas e fisiológicas”.(SILVEIRA; CAVALCANTE, 2021)


Compreender reações comuns e modos de despertá-las através da percepção pode ajudar a acessar subjetividades e faculdades internas e externas que muitas vezes nem sequer consideramos a existência. Trazer a essência de algo pode despertar a essência de si, criando um diálogo silencioso que diz mais do que qualquer signo verbal poderia ser capaz de transmitir. A linguagem visual, justamente, não busca ser irrefutável, mas ser uma maneira de abrir diálogos entre leitor e objeto através de um simples e intuitivo ato de olhar, mesmo que posteriormente haja uma gama de relações possíveis. 

A voz das formas: Sobre

REFERÊNCIA  BIBLIOGRÁFICA

DESIGN e Visualidade: Aspectos da percepção Visual aplicados ao Design de Produto. Orientador: Professora Doutora Isabel Maria Dâmaso Rodrigues. 2019. 189 p. Dissertação (Mestrado em Design de Equipamento) - Universidade de Lisboa Faculdade de Belas-Artes, Lisboa, 2019. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/44191/2/ULFBA_TES-InesLerias.pdf. Acesso em: 6 fev. 2022.  

 

RIBEIRO, Sônia; LOURENÇO, Carolina. Bauhaus: uma pedagogia para o design. Estudos em Design: Revista Online, Rio de Janeiro, 2012.

 

LUPTON, E. Dicionário visual. In: LUPTON, E. M. J. A. (. ). ABC da Bauhaus: a Bauhaus e a teoria do design. São Paulo: Cosac Naify, 2008. p. 26-37.

 

SILVEIRA, Nathalie Barros da Mota; CAVALCANTE, Virginia Pereira. Reflexões sobre a linguagem visual no processo de configuração dos artefatos. DATJournal, [S. l.], v. 6, n. 3, 18 out. 2021. Design+Arte, p. 1-18. DOI https://doi.org/10.29147/dat.v6i3.439. Disponível em: https://datjournal.emnuvens.com.br/dat/article/view/439/318. Acesso em: 12 fev. 2022.

 

FRACCAROLI, Caetano. A Percepção da Forma e a Sua Relação com o Fenômeno Artístico: O Problema Visto Através da Gestalt. 1952. 33 p. Dissertação (Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1952.

A voz das formas: Texto

FICHA TÉCNICA

Texto desenvolvido por Helena Contocani Silva para a disciplina Introdução ao Estudo do Design - Universidade Federal do Rio Grande do Norte - Departamento de Design - Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com).

A voz das formas: Texto

©2022 por Teoria da visualidade

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