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Teoria da Gestalt: A ilusão de ótica e como nossos olhos funcionam

   A maioria de nós quando nasce já desenvolve o sentido da visão; esse sentido, é um grande determinante para como percebemos o mundo ao nosso redor. Mas você já se perguntou como esse sentido funciona, ou como as imagens são formadas por nossos olhos?

   O olho humano funciona de forma semelhante ao experimento da câmara escura. Nesse experimento utiliza-se uma caixa preta com um pequeno orifício pelo qual a luz refletida no objeto passa e cada ponto se projeta a um ângulo específico de modo a formar uma imagem invertida em relação à original na superfície oposta da caixa. Sobre esse experimento, sabe-se que:

O funcionamento da câmara escura é de natureza física. O princípio da propagação retilínea da luz permite que os raios luminosos que atingem o objeto e passem pelo orifício da câmara sejam projetados no anteparo fotossensível na parede paralela ao orifício (Gabriela Porto, infoescola).

Da mesma forma ocorre no olho. A luz passa pela córnea, a qual funciona como uma lente, entra pela nossa pupila, que corresponde ao orifício da câmara escura, e se projeta na retina. Em seguida, o nervo óptico leva a informação da retina para o nosso cérebro.

Anatomia do olho humano

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   No entanto, o que realmente define a forma como enxergamos o mundo é como o nosso cérebro interpreta essas informações que recebe. Antigamente, segundo a psicologia clássica, acreditava-se que as imagens eram tratadas como pontos isolados e a pessoa aprendia com a experiência a interpretá-las, como vê-se no trecho a seguir:

Na psicologia clássica, a percepção da forma era resultado da soma de sensações isoladas. A luz incide na retina e aí inicia uma mensagem que se propaga ao cérebro dando origem a sensações visuais. A forma é dada, posteriormente, por um processo de associação dessas sensações parceladas. É, por isso, chamada também, psicologia atomista ou associacionista. Para explicar a associação, essa teoria recorre à experiência, isto é, o indivíduo, pelo contato sucessivo com objetos idênticos, aprende a associar os estímulos luminosos que deles provêm. Assim, para a criança recém nascida, o mundo seria um caos luminoso e a forma, mais tarde percebida, um fato arbitrário, resultado da aprendizagem. (Fraccaroli, 1952, p.9-10).

Essa teoria, porém, não é mais aceita, pois se fosse como diz, não seria possível a existência das ilusões de ótica.

   As ilusões de ótica só são possíveis pois, como explica a teoria da Gestalt, o nosso cérebro possui um tipo de mecanismo que junta e interpreta as imagens seguindo alguns critérios chamados de forças integradoras, como se explica também no texto de Fraccaroli:

A hipótese da Gestalt para explicar a origem dessas forças integradoras é atribuir ao sistema nervoso central um dinamismo auto regulador que, à procura de sua própria estabilidade tende a organizar as formas em ‘todos’ coerentes e unificados. Essas organizações, originárias na estrutura cerebral são, pois, espontâneas, não arbitrárias, independentes de nossa vontade e de qualquer aprendizado. (Fraccaroli, 1952, p.12).

   Dentre essas forças internas de integração, estão os princípios de Segregação e Unificação, que são determinados pela igualdade e desigualdade de estimulação; o Fechamento, que determina que as forças de organização tendem para estabelecer uma ordem de unidades de inteiros fechados; a Sequência, que determina que toda unidade linear tende a se prolongar psicologicamente na mesma direção e movimento; a Proximidade e a Semelhança, que ditam que os elementos próximos entre si ou parecidos em forma e cor tendem a ser vistos como uma unidade; e a Pregnância da forma, que diz que as forças de organização tendem às condições dadas tanto quanto o permitem.

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   Porém, sabe-se que apesar da organização da visão em nosso cérebro não funcionar da forma que pensava a psicologia clássica (apenas de acordo com como aprendemos a enxergar), a experiência também é um fator importante nessa equação, mas não é o principal; como por exemplo na logo do Carrefour, aqui no Brasil nós normalmente a enxergamos como uma figura composta por duas partes, uma azul e uma vermelha com um formato bastante curioso; mas na França, local de origem da empresa, devido à familiaridade do público com a própria bandeira, as pessoas acabam completando o formato e enxergando um C branco no meio do losango, entre a parte azul e a vermelha, que é justamente a inicial da marca. Essa característica do valor da experiência é reconhecida inclusive pela própria teoria da Gestalt, como diz no texto de Fraccaroli:

Se a Gestalt não dá, à experiência, o valor exclusivo atribuído pela psicologia associacionista, para explicar a percepção da forma, reconhece-lhe, contudo, um papel concomitante aos fatores já mencionados. Sem dúvida, o indivíduo pode aprender a ver de determinada maneira e é possível, mesmo, que esse treino deturpe a percepção original. Mas, o que parece certo (Os Gestaltistas o demonstram num rigoroso trabalho de pesquisa, mostrando as falhas da psicologia clássica) é que há uma percepção espontânea da forma, que obedece a certos padrões de organização, independentemente de qualquer aprendizado. (Fraccaroli, 1952, p.28).

   Já um bom exemplo das leis da Gestalt se sobressaindo ao valor da experiência, é a imagem ao lado, retirada do livro de Fraccaroli, a qual apesar de ser formada por um W e um M, e essas duas letras serem familiares a nós, à primeira vista não as enxergamos, vemos apenas um losango com prolongamentos de seus lados ou um V por cima de outro V invertido horizontalmente.

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fraccaroli (1952, p.28)

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   Quanto às ilusões de ótica, como vimos nesse texto, elas ocorrem devido às associações que nosso cérebro faz para formar uma imagem, que por não ter valor atribuído apenas à experiência, podemos até tentar nos forçar a enxergar da maneira correta por já saber, mas acaba não sendo possível. Se nosso cérebro não interpretasse essas informações sozinho, e fosse como diz a psicologia clássica, veríamos de forma objetiva e essas “ilusões” não ocorreriam, como por exemplo na imagem ao lado, apesar de sabermos que é uma imagem, e por isso é impossível ela estar em movimento, temos a impressão de que ela se mexe.

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Referências bibliográficas:

  • FRACCAROLI, C. A Percepção da Forma e sua Relação com o Fenômeno Artístico. São Paulo: FAUUSP, 1952.

Ficha Técnica:

   Texto desenvolvido por Drielle Sofia de Oliveira Dantas para a disciplina de Introdução ao Estudo do Design – Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Departamento de Design – Fevereiro de 2022. O texto colabora com o projeto de extensão “Blog Estudos sobre Design”, coordenado pelo Prof. Rodrigo Boufleur (http://estudossobredesign.blogspot.com)

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